Cultura gay
Grandes autores
Dr. Luiz Mott

Professor Titular do Departamento de Antropologia da UFBa,Fundador do Grupo Gay da Bahia.
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Revolução homossexual
                                         
O poder de um mito
 

               
"Sodoma quer dizer traição. Gomorra, rebelião"
                          ( Frei Felipe Moreira, 1645). 
                    "O buraco do meu cu é revolucionário!"
                           
(Guy Hocquenghem , 1980).

Nos últimos quatro mil anos, nas diferentes civilizações que serviram de  matriz à cultura ocidental, a homossexualidade foi rotulada por diversos  nomes atrozes que reflectem o alto grau de reprovação associado a esta performance erótica: abominação; crime contra a natureza; pecado nefando;  vício dos bugres; abominável pecado de sodomia; velhacaria;  desvio; doença, etc. (1). E os homossexuais - mais os  do sexo masculino do que as lésbicas - foram condenados a diferentes penas de morte: apedrejados, segundo a Lei Judaica; decapitados, por ordem de Constantino em 342 d. C.; enforcados, afogados ou queimados nas fogueiras da Inquisição, durante a Idade Média e até os tempos modernos.  (2); queimados pelos nazistas nos campos de concentração (3). Ainda hoje gays, lésbicas e  travestis são torturados, presos, humilhados ou torturados, em certos países mais atrasados, só por sua opção sexual. Mesmo em Portugal,  pais e mães proclamam sem remorso: "prefiro um filho ladrão do que maricas"  ou "antes uma filha prostituta do que lésbica" (5).

    O objectivo deste texto é reconstituir a génese e o significado da  homofobia na nossa sociedade: através da etno-histórias mostraremos que a nossa   intolerância anti-homossexual tem as suas raízes na tradição judaico-cristã,  que desde cedo percebeu o carácter ameaçador, político e revolucionário da      homossexualidade, daí transformar o sexo e amor entre pessoas do mesmo  gênero em crime abominável e o mais detestável de todos os pecados. Hoje,      quando se ouve  perguntar naquele tom de voz acusador: "Não me digas que tb és paneleiro ?" , inconscientemente, está-se a repetir um veredicto que  foi atribuído à própria vontade divina, imaginando-se assim evitar, através da repressão e aniquilação dos praticantes do "amor que não ousa  dizer o nome", a destruição da própria humanidade.

É perfeitamente possível datar a origem e explicar o background de um dos      mitos mais significativos da cultura ocidental, e que permanece ainda hoje   como o maior tabu do mundo moderno: a homossexualidade (6). A sua origem teve lugar por volta de quatro mil anos passados, na Caldéia, quando um velho pastor, Abraão, divulga certas  revelações que assegurava ter recebido do próprio Deus, escolhendo-o como fundador de um povo predestinado. Elabora-se então, nesse momento, um  projecto civilizatório que se vai tornar o mito fundador não só do povo  judeu, como da própria história genealógica das três principais religiões  do mundo moderno: judaísmo, cristianismo e islamismo.

Segundo se pode ler no primeiro livro da Bíblia, o Gênesis, Abrão teria     nascido em Ur, na Caldéia, e casado com Sara, que era estéril. Conjecturam      os historiadores e exegetas que, por volta do ano 1800 a. C., toda sua família e agregados partem em direcção à terra de Canaã, estabelecendo-se em Harã, onde seu progenitor Taré falece aos 205 anos de idade. É aí que tem início o diálogo de Javé com Abrão e a origem do mito que serviu de  base e justificativa não só à posterior condenação do homoerotismo, mas da violenta sexofobia que vai caracterizar e distinguir a cultura sexual  judaica da sexualidade dos povos circundantes (7). Eis a versão original do mito:

  "O Senhor disse a Abrão: Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai  e vai para a terra que eu te mostrar. Farei de ti uma grande nação. Eu te      abençoarei e exaltarei o teu nome, e tu serás uma fonte de bênção. Todas     as famílias da terra serão benditas em ti; Tornarei tua posteridade tão  numerosa como o pó da terra; Levanta os olhos para os céus e conta as  estrelas se és capaz; Pois, assim será a tua descendência; Eu dou esta   terra aos teus descendentes, desde a torrente do Egipto até o grande rio Eufrates;" (8).
   Passam-se anos, e Abrão e Sara continuavam sem descendentes consanguíneos.  Ao completar 99 anos, Javé aparece-lhe, ratificando a promessa: "Quero   fazer uma aliança contigo e multiplicarei ao infinito a tua descendência;  De agora em diante não te chamarás mais Abrão, e sim Abraão, que quer  dizer pai de uma multidão de povos;"

É sintomático que exactamente após essa aliança estabelecida entre Javé e      Abraão, pouco antes de Sara engravidar, são destruídas as cidades de  Sodoma e Gomorra, o principal símbolo da homossexualidade no mundo antigo.  Motivo: "o seu pecado era muito grande!" (9). Logo em seguida nasce Isac,  a prova de que para Deus nada é impossível, concretizando-se assim a primeira profecia.
Já adulto, Isac casa-se com Rebeca, dando origem ao povo hebreu.

Segundo ensina a etnodemografia, podemos dividir as diferentes sociedades      humanas em dois grandes complexos no que tange a seu projecto civilizatório: de um lado as culturas pró-natalistas, que estimulam a  procriação, aspiram à longevidade máxima, reprimem e diabolizam o sexo  não-reprodutivo, canalizando toda a energia sexual para a multiplicação  máxima da espécie; do outro, as sociedades antinatalistas, que limitam os  nascimentos, estimulam práticas anticoncepcionais, abortíferas ou mesmo o   infanticídio, onde o sexo visa primordialmente o prazer e não a reprodução  (10).

Nós, os povos espiritualmente descendentes de Abraão, judeus, cristãos e      muçulmanos, somos herdeiros típicos da ideologia demográfica  pró-natalista, onde a religião e a moral ensinam que o sexo se destina  unicamente à reprodução, tendo como base a ordem do Divino do Criador:  "crescei e multiplicai-vos".

Rodeados por nações antigas, superpopulosas e poderosas - assírios,  babilónicos, caldeus, hititas, egípcios -, os hebreus, esse pequeno bando de pastores nómades, não tinham outro caminho para atingir seu  ambicioso projecto civilizatório: fazer filhos, fazer muitos filhos, engravidando ao máximo as suas mulheres e escravas, a fim de cumprir a  promessa feita por Javé ao patriarca Abraão: "Multiplicarei a tua posteridade como as estrelas do céu e as areias do mar!". Destarte, o  exercício da sexualidade passou a ter apenas um objectivo: povoar de  estrelas-humanas as areias do deserto, procriar novos guerreiros capazes  de enfrentar os violentos inimigos, esses, sempre desejosos de curvar o orgulho daquela pequenina tribo de pastores endogâmicos, que propalava ser  o único povo escolhido pelo verdadeiro Deus, Javé, o Deus dos Exércitos. E   que tratava os povos vizinhos como gentios, e suas divindades, como falsos  deuses.

  Cada gota de esperma desperdiçado passou a constituir verdadeiro crime de lesa-nacionalidade, pois todo sémen deveria ser depositado no único  receptáculo capaz de reproduzir um novo ser humano: o vaso natural da mulher. Daí o Levítico condenar à pena de morte os que praticassem a masturbação, o coito interrompido ("onanismo"), o bestialismo e a  homossexualidade. "Não te deitarás com um homem como se fosse mulher: isto  é uma abominação. Não terás comércio com um animal, para não te  contaminares com ele. Uma mulher não se prostituirá a um animal, isto é   uma abominação" (11).  A relação homoerótica masculina foi mais perseguida do que os demais actos   não-reprodutivos por uma simples lógica aritmética: são dois "semeadores"  que desperdiçam a semente vital, diferentemente de quando um homem se masturba ou mantém relação com algum animal, ocorrendo a perda de apenas  um produtor da semente vital. É dentro desta lógica, visando a maximização do aproveitamento do esperma, que o Antigo Testamento praticamente ignorou  a existência do lesbianismo dentro do povo judeu. A relação sexual entre   duas mulheres não representava a menor ameaça ao projecto super-reprodutivo  tribal, posto que nessa sociedade machista e patriarcal não se levava em   conta o interesse ou desejo sexual das fêmeas, mas a vontade e o prazer do macho e o seu orgulho em demonstrar, com farta prole, essa sua potência e poder.
Mesmo lésbicas, as filhas de Eva eram obrigadas a casar-se e oferecer o seu  vaso natural à procriação.

Um outro elemento ideológico, também de inspiração mitológica, reforçou ainda mais o direccionamento da libido exclusivamente para a reprodução, e      a consequente criminalização dos actos sexuais não-procriativos,  notadamente da performance que mais desperdiçava o sémen vital, a sodomia  homossexual. Trata-se do mito do nascimento do Messias: o enviado de Deus,      nascido de uma virgem, encarregado por Javé de instaurar a utopia a que todos aspiravam, transformando as espadas em arados, os rios em correntes de leite e mel, onde os leões e cordeiros viveriam para sempre em paz (12).

Esse paradisíaco reino da abundância e da concórdia dependia apenas  de um simples acto para tornar-se realidade: o nascimento do messias através de uma cópula heterossexual. De modo que, ao se desperdiçar o sémen, não era apenas um novo pastor/guerreiro que deixava de nascer: o próprio Messias estava sendo impedido de trazer a felicidade ao povo  eleito, um crime de lesa-divindade.

É este, portanto, o mito fundador que inspirou o projecto civilizatório e  expansionista demográfico dos povos descendentes de Abraão, justificando a brutal condenação ao homoerotismo masculino e, em decorrência, a própria      destruição dos principais nichos simbólicos desse abominável desperdício do sémen, as cidades de Sodoma e Gomorra e as suas cinco sucursais diabólicas, a Pentápolis (13).

                         Raízes da homofobia:
              o medo da revolução homossexual

Para os nossos ancestrais judeus e, posteriormente, em toda a cristandade, o preconceito homofóbico tinha como justificativa inconsciente não apenas o desperdício do sémen, visto como uma espécie de controle perverso da
natalidade, temendo-se, mais que a peste, a ameaça desestabilizadora  representada pelos amantes do mesmo sexo, na medida em que importantes costumes tradicionais eram colocados em xeque pelo revolucionário estilo  de vida dos sodomitas: o sexo prazer desvinculado da procriação, a  tentação da androginia e da unissexualidade, o questionamento da  naturalidade da divisão sexual do trabalho e dos papéis de gênero.

Grande parte da condenação à cópula anal heterossexual, divulgada nos  manuscritos de comentários rabínicos, nos compêndios de teologia moral e    manuais de confessores, explica-se por uma simples razão: o perigo da  confusão dos vasos.
      De acordo com a terminologia anatómica dos tratados de moral cristã e dos  regimentos do Santo Ofício da Inquisição, o corpo humano comporta dois  vasos: as mulheres possuem o vaso natural ou dianteiro, onde o membro   viril derrama a semente de homem; mulheres e homens possuem o vaso também referido nos séculos passados como vaso prepóstero, anus,  via posterior ou via do curso. Em alguns processos  inquisitórias, percebe-se um temor obsessivo, por  parte dos amantes mais descontrolados, de terem inadvertida, ou  maliciosamente, confundido os vasos, copulando "à moda de Sodoma" em vez   de usar o vaso dianteiro. 

      Os moralistas e donos do poder sempre condenaram e reprimiram a tentação   de se usar o vaso traseiro, como via ou locus do prazer, como solução para    evitar a gravidez ou até, no caso do sexo com mulheres públicas, como   alternativa menos perigosa de contágio das doenças do mundo ("mal gálico",  entre outras) (16). Isto no que se refere ao trato erótico heterossexual,   embora a maior repressão incidisse exactamente contra os adeptos da cópula   anal entre machos - tanto que não chega a 5% o número de prisões de  mulheres e homens envolvidos em relações anais, se comparados com os   copuladores homoeróticos - aplicando-se pena máxima da fogueira  registrando-se tão-somente aos parceiros do mesmo sexo (17).

      Repetimos: a sodomia homossexual sempre foi mais reprimida do que o sexo  anal heterossexual por duas razões: por serem dois os indivíduos a desperdiçarem o esperma, e por ameaçarem não apenas o projecto demográfico expansionista, primeiro dos judeus, depois da cristandade e do Islão, mas por ostentarem os homens sodomitas um estilo de vida incompatível com os  pressupostos fundantes da família patriarcal de tradição abraâmica (18).

Ensina a antropóloga inglesa Mary Douglas, ao interpretar as abominações      do Levítico, que o nosso Deus, por ser puro espírito, não tolera a  mistura: "Vós sereis santos porque eu sou santo', disse o Senhor. A  santidade é exemplificada pela integridade. A santidade requer que os  indivíduos se conformem à classe à qual pertencem. E a santidade requer  que diferentes classes de coisas não se confundam. Outro conjunto de  preceitos aperfeiçoa esta ideia. A santidade significa manter distintas as   categorias da criação. ser santo é ser total, ser uno. A santidade é  unidade, integridade, perfeição dos indivíduos e das espécies" (19).

  Não é só o Levítico que rejeita a mistura: também no Apocalipse, João, "o
discípulo que Jesus amava", reforça o mesmo dogma: "Por que não és frio,
nem quente, e sim morno, eu te vomitarei!" (20). Na classificação bíblica
dos animais, dos actos e condutas puras e impuras, impera irredutível maniqueísmo: a indistinção das categorias representa mais do que uma  aberração, é uma abominação detestável, um horror. Por exemplo, "um homem      dormir com outro homem como se fosse mulher" é abominável pois contradiz a  ordem natural prevista pelo Criador, ao dividir os seres vivos em machos e  fêmeas. Ou como nos dizem alguns  protestantes mais simplórios: "se Deus tivesse planeado o homossexualismo, teria criado Adão e Ivo e não Adão e Eva;". Para estes, repete-se o douto comentário do Filho de Deus: "Bem-aventurados os pobres de espírito;".

  Como outros "desvios" sexuais, na óptica veterotestamentária, o amor entre  dois homens também foi considerado por Deus como abominação gravíssima, punível com a morte por apedrejamento, posto que o macho foi criado   exclusivamente para depositar a sua esperma no vaso natural da fêmea. Os  sodomitas, ao contrário, além de usarem um vaso impuro, correm o risco de  misturar matérias inconciliáveis, a cândida semente do homem com o vil excremento fecal.

Num mundo de extrema violência como era o cenário bíblico na Antiguidade -  consulte-se o Livro de Josué como ilustração - aquele bando de pastores   nómades desenvolveu códigos de sociabilidade e papéis sociais fortemente  hierarquizados e rudes, pois a segurança e a sobrevivência das mulheres,  crianças, dos anciãos e rebanho, dependiam vitalmente da força física   individual e colectiva dos machos adultos. Tornou-se crucial o   fortalecimento e dureza do papel de gênero masculino, a rígida divisão  sexual, de um lado o mundo dos super-homens, ligado às armas, à guerra, ao  enfrentamento do mundo hostil; do outro, o mundo feminino, submisso,  doméstico, voltado para a prole, recluso. Misoginia institucionalizada que  se reflectia inclusive no espaço marginal ocupado pelas mulheres no culto javédico, devendo ficar confinadas nos corredores laterais fora do salão principal da sinagoga, postura, aliás, que o principal teórico do  cristianismo, o ex-fariseu Paulo, reforçou ao determinar que as filhas de   Eva jamais usassem a palavra em público (21).

Como muitos outros povos, também os descendentes de Abraão herdaram forte  tradição falocrática: o macho tem no falo a origem e legitimação do seu    poder. A mulher vale, primeiro, pelo hímen intacto; depois de deflorada   pelo seu legítimo marido e senhor, vale pela fertilidade das suas entranhas  e fidelidade a seu esposo. Falocracia e himenolatria (22) tornaram-se     valores sustentados pelas noções de honra e vergonha (23). O levirato - aquele antigo costume judaico de a viúva ser apropriada pelo cunhado  sobrevivente - ratifica os direitos do macho sobre todas as mulheres do  clã. Mulher de meu irmão não será usada por macho estranho: a adúltera e a falsa virgem eram igualmente condenadas à pena de morte por apedrejamento      (24).

  Nesse contexto de rígida divisão sexual e superioridade masculina, o travestismo e inversão de gênero, fenómenos observados em maior ou menor     grau na maioria das sociedades antigas e contemporâneas (25), eram  repelidos como impertinente desafio à ordem divina e, portanto, gravíssima  abominação: a tentação de alguns homens de vestir-se e viver como se  mulheres fossem era severamente punida. "A mulher não se vestirá de homem, nem o homem se vestirá de mulher: aquele que o fizer, será abominável  diante do Senhor teu Deus!" (26).

  Para o judaísmo, a unissexualidade é sempre uma abominação, porém em grau   diferente de gravidade moral: a mulher que se traveste representa uma      invasão indébita no universo próprio dos homens, uma usurpação e ameaça à   hegemonia do macho. Desvio mais fácil de ser controlado e com consequências menos deletérias. O travestismo no homem representava, e  continua a representar, ameaça muito maior, pois é visto como rebaixamento  do sexo forte, desonra, e sobretudo, abdicação imperdoável do direito  natural e divino à hegemonia do sexo forte. Um homem vestido de mulher rebaixa-se à condição de sexo frágil, segundo sexo - ou melhor, terceiro  sexo, para utilizar a terminologia muito em voga nos meados do século XIX  (27)
.
Sendo assim,  o desejo da androginia ou da unissexualidade, mais do que uma  mera desobediência estética, era visto como perigosa ameaça à separação e  tradicional antagonismo dos papéis de macho e fêmea, não apenas no vestir  e agir, como nas funções vitais de manutenção dessa sociedade, sobretudo,  no tocante à subsistência material e à segurança. Daí Javé abominar quem ousasse vestir-se com roupa do sexo oposto. Mulheres masculinizadas,   guerreiras, foram até honradas com as bênçãos divinas, em certos momentos  de crise da história de Israel. Homem efeminado, ou vestido de mulher,   abominação! Os opostos têm de ser mantidos como garantia de que os fortes   continuarão defendendo e mandando nos fracos.

      Acresce-se um crucial factor de afirmação religiosa na oposição de nossos  ancestrais à homossexualidade masculina e ao travestismo: a condenação da   idolatria dos pagãos, cujos rituais incluíam a presença de prostitutos    sagrados, sacerdotes e deuses que tinham no homoerotismo a realização de nobres ideais de piedade e virtude. Segundo ensinam os estudos modernos      de exegese bíblica e história comparada das religiões, diversos povos  vizinhos dos judeus praticavam a kadeshah, a prostituição sagrada, cabendo aos prostitutos homossexuais, os kadesh, importante papel nos rituais de  hierodulia. Assim, ao condenar a relação sexual entre homens, além dos   preconceitos machistas acima apontados, há de se levar em conta na  homofobia bíblica a intenção de negar e abominar a tentação da idolatria   gentílica, que tinha no homoerotismo uma forma piedosa de culto à  divindade (28).

Mais que o travestismo, o maior perigo representado pelo homoerotismo sempre foi o questionamento da naturalidade dos papéis de género  atribuídos aos dois sexos. Um homem que abdica do privilégio de ser  guerreiro, ou mesmo de servir como sacerdote no altar do Deus dos  Exércitos, optando por tarefas e ocupações inferiores identificadas com o  universo feminino, provoca uma crise estrutural de proporções  imprevisíveis, pois tal novidade poderia se tornar prevalente, ameaçando  gravemente a perpetuidade deste povo e segurança nacional.

      Muitos gays, em incontáveis sociedades, distinguiram-se dos demais machos
      exactamente por  esse hibridismo comportamental e ocupacional, quando não pela   
      inversão  total de papéis e tarefas sócio económicas, novidade performática que põe
      em risco a tradicional divisão sexual do trabalho.

      Outro grave perigo representado pelos sodomitas seria a invasão do
      homoerotismo nas hostes guerreiras e acampamentos de pastores. Em
      sociedades rigidamente divididas pelas fronteiras do sexo, onde homens
      passavam boa parte do dia isolados entre si, prolongando-se ainda mais tal
      apartação nos períodos de guerra, a permanência dessas comunidades
      unissexuais torna quase incontrolável o surgimento de interacções
      homoeróticas. Diversos são os exemplos de povos guerreiros, como os
      gregos, os índios caduveus, entre outros, cujas culturas, fortemente
      inspiradas pela ideologia antinatalista, permitiam e facilitavam a
      constituição de parcerias homossexuais nas campanhas militares e
      academias, predominando nalgumas formações históricas, a formação de "casais",
      onde uma das partes assumia papel
      andrógino ou tipicamente feminino (29), noutras, como entre os dóricos, os
      dois parceiros mantinham postura viril, numa relação que a antropologia
      chamaria de reciprocidade equilibrada (30).

                 Nas trevas do preconceito

      Um traço significativo chama a atenção no estudo da homossexualidade
      ocidental: a inexistência de comprovação de que a lei de Moisés,
      condenando à morte por apedrejamento "o homem que dormir com outro homem
      como se fosse mulher", tenha efectivamente sido cumprida. Nas escrituras
      sagradas não há referência a nenhuma execução, e durante os muitos séculos
      que os judeus estiveram submetidos a diferentes cativeiros, depois que o
      Reino da Judéia perdeu sua independência, não dispunham de autonomia legal
      para aplicar a pena de morte de acordo com as prescrições do Levítico
      (31). Curioso, que, em vez de cenas de apedrejamento, o Antigo Testamento
      revela pelo menos,  "um caso de amor descaradamente homossexual:
      a amizade   imorredoura entre Davi e Jônatas".

       Apesar de alguns biblistas insistirem
      que se tratava de um amor meramente espiritual, a que rotulam de ágape,
      cada vez mais, os exegetas entendem que se tratava mesmo do amor inspirado
      em eros, "o mesmo tipo de relação existente entre Aquiles e Pátroclo na
      Ilíada, à de Gilgamesh e Enquidu na Epopeia de Gilgamesh, e à de Alexandre
      Magno e Hefestion". Afirmação tão ousada não é de um militante gay, mas do
      sacerdote Tom Horner, doutor em Literatura Religiosa pela Universidade de
      Columbia, autor de O Sexo na Bíblia (32). As palavras de Davi, quando da
      morte de seu parceiro, não deixam dúvidas dessa paixão homoerótica: "O meu
      coração chora por tua causa, meu irmão Jônatas; quão agradável me eras:
      mais delicioso me era o teu amor do que o amor das mulheres" (33).
      Segundo analisa o mesmo estudioso, "tais homens não eram de forma alguma
      efeminados: eram guerreiros amigos, essencialmente bissexuais".

      Duas correntes de historiadores disputam entre si a melhor interpretação
      da evolução da intolerância anti-homossexual na tradição judaico-cristã. A
      explicação tradicional, inspirada nos próprios textos bíblicos e no
      historiador Josephus, contemporâneo de Cristo, defende que desde os tempos
      do Levítico, sem solução de continuidade, predominou a intolerância máxima
      contra os "sodomitas", assim como em relação às demais expressões sexuais
      que não fossem a conjugalidade monogâmica.

      A outra interpretação, com base nas eruditas e inéditas pesquisas do Dr.
      John Boswell, no seu clássico Christianity, Social Tolerance and
      Homosexuality, defende que o primeiro milénio do cristianismo foi muito
      mais tolerante à homossexualidade do que vulgarmente se imagina: padres,
      reis e nobres, até santos, foram publicamente reconhecidos como amantes do
      mesmo sexo; poesia e prosa, de inspiração cortesã ou mística, cantam o
      amor pelo amigo (34); a própria expressão gay, popularizada nos meados do
      século XX nos países de língua inglesa, e depois universalmente, como
      sinónimo de homossexual, já seria utilizada desde o século XIII, na língua
      catalã-provençal, como equivalente de "rapaz alegre".

      Ainda nesta linha, pretendem os seguidores desta corrente interpretativa que a própria
      associação da destruição de Sodoma e Gomorra, e a consequente
      identificação da "sodomia" à cópula anal, foi uma construção
      historicamente datada, a partir do primeiro século da era cristã, com
      nítida influência do estoicismo, tanto que uma dezena de profetas e o
      próprio Cristo atribuem a destruição dessas duas cidades não à imoralidade
      sexual, muito menos ao homoerotismo, mas a outros pecados considerados na
      época merecedores de severa punição divina, como a falta de hospitalidade
      e a impiedade (35). Portanto, foi com base numa interpretação errónea, e
      em contradição aos principais escritores bíblicos, inclusive aos
      comentários do próprio Filho de Deus, que alguns padres da Igreja passaram
      a identificar o pecado de Sodoma com a homossexualidade, elaborando
      argumentos teológicos que serviram de justificativa para a punição dos seus
      praticantes (36).

      Segundo o Dr. Boswell, teria sido somente a partir do século XIII que a
      Europa presencia o desenvolvimento generalizado de dois ódios que marcarão
      profundamente nosso mundo no último milénio: a homofobia e o
      anti-semitismo. No caso da intolerância anti-homossexual, é sobretudo
      graças ao dominicano Santo Tomás de Aquinhoo (1225-1274) que a sodomia passa
      a ser oficialmente considerada peccatum contra naturam, e os homossexuais
      confirmados como provocadores de castigos divinos e toda sorte de
      calamidades à cristandade:
      "Sobre todos os pecados, bem parece ser o mais torpe, sujo e desonesto o
      pecado de Sodomia, e não é achado um outro tão aborrecido ante a Deus e o
      mundo, pois por ele não somente é feita ofensa ao Criador da natureza, que
      é Deus, mais ainda se pode dizer, que toda a natureza criada, assim
      celestial como humana, é grandemente ofendida: somente falando os homens
      neste pecado, sem outro acto algum, tão grande é o seu aborrecimento que o
      ar não o pode sofrer, mas naturalmente fica corrompido e perde a sua natural
      virtude. Por este pecado lançou Deus o dilúvio sobre a terra e por este
      pecado soverteu as cidades de Sodoma e Gomorra; por este pecado foi
      destruída a Ordem dos Templários por toda a Cristandade em um dia.
      Portanto mandamos que todo homem que tal pecado fizer, por qualquer guisa
      que ser possa, seja queimado e feito pelo fogo em pó, por tal que já nunca
      de seu e corpo e sepultura possa ser ouvida memória" (37).

      Como se constata, diversas tragédias da história humana foram atribuídas
      aos amantes do mesmo sexo: o dilúvio universal, a destruição de Sodoma,
      Gomorra e das cinco cidades circundantes. O principal teólogo franciscano
      medieval, São Boaventura (1221-1274), defendia que a razão da demora de
      Jesus Cristo se encarnar, desde a remota promessa feita por Javé a Abraão,
      se devia ao fato de a terra estar sobremaneira infestada de sodomitas, e
      que na noite de Natal morreram multidões dessas imundas criaturas (38).
      Além de ter causado o desmantelamento da famigerada Ordem dos Templários
      (1123-1312), atribui-se aos homossexuais a derrocada de dois grandes
      impérios antigos: a queda do Império Romano e a perda da Andaluzia pelos
      mouros. Razões abundavam, no imaginário popular, para se temer o amor
      homoerótico! (39).

      Tomarei, como fio condutor para interpretar o recrudescimento da
      intolerância anti-homossexual na baixa Idade Média, três hipóteses, todas
      elas directa ou indirectamente vinculadas ao temor do componente perturbador
      e revolucionário associado à homossexualidade, a saber: tentativa de
      expurgar a expansão do homoerotismo no clero e nas ordens religiosas;
      reacção à depopulação da Europa decorrente da peste negra; estratégia para
      impedir a vulgarização do amor erótico/romântico como móvel das uniões
      conjugais.

      Começo por analisar a percepção do perigo representado pela crescente
      presença da sodomia no mundo eclesiástico medieval e a reacção da
      hierarquia católica visando à erradicação desse perigoso pecado.

      Embora os livros penitenciais - que serviam como orientação teológica aos
      confessores, desde o século VI até o X - contenham sempre, quando menos,
      um cânone condenatório da sodomia, é São Pedro Damiani (1007-1072) o
      primeiro autor a dedicar toda uma obra à incriminação da homossexualidade.

      Trata-se do clássico Liber Gomorrhianus (Livro de Gomorra), datado de
      1049, oferecido ao papa Leão IX, onde este escrupuloso sacerdote propõe
      uma pastoral dirigida aos clérigos a fim de fazê-los abandonar o
      abominável pecado de sodomia, sugerindo igualmente medidas punitivas
      contra os relapsos.  O motivo que o levou a escrever tal obra é indicado
      logo no prefácio: "o crescimento deste vergonhoso e abominável vício",
      segundo ele, perigosíssimo e hediondo. O seu texto é um dos libelos mais
      homofóbicos que se escreveu em toda história humana:

     "A sodomia ultrapassa a sordidez de todos os vícios. É a morte dos corpos, a destruição     
      das almas. Este vício possui a carne, extingue a luz da mente. Expulsa o
      Espírito Santo do templo do coração humano, introduz o Diabo, que incita à
      luxúria. Induz ao erro, remove completamente a verdade da mente que foi
      ludibriada, abre o inferno, fecha a porta do paraíso. Este vício tenta
      derrubar as paredes da casa celestial e trabalha na restauração das
      muralhas reconstruídas de Sodoma, pois viola a sobriedade, mata a
      modéstia, sufoca a castidade e extirpa a irreparável virgindade com a
      adaga do contágio impuro. Conspurca tudo, desonrando tudo com sua nódoa,
      poluindo tudo. Não permite nada puro, nada limpo, nada além da imundície" (40).

      Diversos historiadores confirmam que, durante boa parte da Idade Média, a
      sodomia passou a ser popularmente conhecida como vício dos clérigos, de
      tal modo era cultuada dentro dos conventos, mosteiros, igrejas e cabidos
      (41). AS pesquisas na documentação da Inquisição Portuguesa confirmam
      essa mesma tendência na Península Ibérica ao longo dos séculos XVI ao
      XVIII: numa lista de mais de 4 mil denunciados e/ou confessados constantes
      nos Repertórios do Nefando, assim como na relação de mais de 400
      sodomitas efectivamente presos e processados pelo Santo Ofício, um terço
      desses indivíduos eram clérigos, sacerdotes e religiosos, valendo, por
      conseguinte, também para o mundo ibérico a identificação da sodomia como
      vicium clericorum (42).

      Para evitar que os fiéis, ao serem recriminados pelas autoridades
      eclesiásticas, pela prática de condutas imorais, não repetissem o ditado
      bíblico, "médico, cura-te a ti mesmo!" (43), urgia que a moralização dos
      costumes se iniciasse dentro das próprias hostes clericais, daí a
      importância do Livro de Gomorra como marco dessa campanha contra o
      relaxamento dos costumes intraclaustros. A forte presença do amor
      homossexual entre os clérigos colocava em xeque um dos alicerces da moral
      cristã: a superioridade da castidade e do celibato vis-à-vis não só a
      incontinência sexual, como em face do próprio matrimônio, posto que a
      Teologia Moral defendia que o estado religioso, com a adopção dos três
      votos (pobreza, castidade e obediência), representava um estado mais
      elevado de perfeição do que a opção conjugal. Inúmeros católicos
       foram denunciados e perseguidos pelas
      diversas inquisições modernas exactamente por defenderem a proposição
      herética que "é melhor casar do que ser padre" (44). Mais ainda: Pedro
      Damiani estabelece vinculação directa entre a sodomia, heresia, lepra e o
      diabo, sendo considerado este pecado mais grave do que o incesto.

      A homossexualização do clero representava um enorme risco não só por
      servir de mau exemplo e estímulo para o relaxamento moral dos leigos, mas
      também, como bem enfatizava Damiani, a presença de padres homossexuais
      desacreditava a pureza das relações dos "pais espirituais" com os seus
      "filhos", na medida em que tornava carnal e libidinoso o que devia primar
      por ser místico e acético. Um clero homossexual coloca em xeque a própria
      seriedade da vida monástica, por trazer o pecado da sensualidade para
      dentro das dependências religiosas - o que era muito mais difícil de ser
      controlado do que as relações com o sexo oposto, posto que as mulheres
      sempre foram rigidamente impedidas de entrar na clausura (e vice-versa, no
      tocante aos homens adentrarem-se em instituições femininas).
      Se São Pedro Damiani se distinguiu pela sua cruzada contra a sodomia
      intraclaustros, um outro santo reformador dirigiu particularmente a sua
      pregação anti-sodo-mítica aos libertinos do mundo: o franciscano São
      Bernardino de Sena (1380-1444).

      "Embora o pecado de sodomia fosse tradicionalmente referido como vício
      inominável, este não é decididamente o caso de Bernardino. Ele o menciona com
      tal frequência que foi considerado o mais expressivo e vívido  comentarista
      a respeito da sodomia na Itália na baixa Idade Média; sendo o
      principal responsável pela exacerbação da grande paúra do Quatrocento
      italiano, a sodomia, inspirando a primeira perseguição do comportamento
      homossexual em larga escala na história europeia, registrado em Florença e
      outras cidades italianas. Ao lado do anti-semitismo e a ansiedade da caça
      às bruxas, a época de São Bernardino é marcada pelo surgimento da
      intolerância à actividade homogenital, tal qual está documentado na
      literatura e legislação eclesiástica e civil, podendo-se falar de uma
      sodomofobia como um fenómeno de intolerância crescente através da Europa,
      tal qual foi estudada por Boswell e Greenberg" (45).

      Bernardino costumava afirmar que Florença era pior do que Sodoma e
      Gomorra, e que a Toscana tinha a mais baixa população do mundo por causa
      do grande número de amantes do mau pecado - atribuindo a essa abominação a
      causa da peste que assolou a Itália naquele período (46).

      A opinião de São Bernardino de Sena, relativamente ao papel dos amores
      unis-sexuais como causa da diminuição populacional, dá a pista para melhor
      entender o recrudescimento da homofobia na baixa Idade Média e a sua
      posterior legitimação, no mundo ibero-americano, através dos tribunais da
      Santa Inquisição. A homossexualidade é apontada como motivadora não só de
      castigos divinos pretéritos e futuros, representando igualmente deletério
      risco à recuperação do crescimento habitacional após a dramática
      depopulação da Europa em decorrência da peste negra. A associação
      implícita ou explícita do amor unissexual ao risco da bancarrota
      demográfica tem sido uma constante ao longo da história humana.

      Mesmo nos nossos dias, quando a humanidade se vê confrontada com o espectro
      da explosão demográfica, os homossexuais continuam sendo acusados de
      constituírem uma grave ameaça à sobrevivência de nossa espécie: é comum
      ouvirmos, entre intelectuais e gente do povo, o argumento de que se for
      completamente liberado o homoerotismo, a humanidade corre inevitável risco
      de extinção. Mais do que ledo engano, tal assertiva indica claramente o
      quanto a sociedade heterossexista teme a normalização dos amores
      unissexuais, pois suspeita que a sua liberação redundaria num crescimento
      incontrolável de homens e mulheres que deixariam de interagir sexualmente,
      pondo em xeque a perpetuidade de nossa descendência. Subjacente a este
      enunciado, está a crença inconfessa de que a maioria dos casais de homens
      e mulheres continua a praticar o heterossexualismo por mera imposição da
      moral dominante. Heterossexualidade compulsória e por decreto, portanto.

      O já citado dr. Boswell, assim como A. Kinsey e F. Whitam, são unânimes em
      reconhecer o contrário dessa crença alarmista: "Não há teoria científica
      contemporânea relativa à etiologia da homossexualidade que defenda que a
      tolerância social determina a sua maior incidência. Mesmo teorias puramente
      biológicas postulam uniformemente que a homossexualidade seria uma
      preferência minoritária sob qualquer condição, mesmo nas mais favoráveis"  (47).
 
      Whitam, estudando diferentes culturas contemporâneas, chegou à média
      de 6% como o total de homossexuais exclusivos, independentemente do maior
      ou menor grau de tolerância regional (48).
      Há provas antropológicas e históricas que confirmam tal assertiva: dois
      exemplos clássicos remetem-nos às sociedades tribais da Nova Guiné e ao
      Japão novecentista. Os etoros, papuanos negróides da Oceânia, pertencem a
      uma cultura que poderíamos chamar de homossexualista, de tal forma é
      oposta à nossa tradição heterossexista abraâmica: todos os rapazes dessa
      tribo, quando entram na puberdade, são confiados a um jovem adulto, que
      tem como obrigação transmitir ao adolescente, por via anal, o seu próprio
      sémen, justificando os nativos que essa é a única forma de tornar aquele
      jovem iniciado num verdadeiro homem, futuro transmissor de esperma. Se
      não receber sémen pelo ânus, não poderá, quando adulto, fecundar a sua
      futura mulher. 

        Tão homossexualista é a cultura etoro, assim como a de diversas outras
      sociedades da Oceânia, que a cópula heterossexual é proibida de 205 a 260
      dias por ano, estando limitada a certos espaços marginais à aldeia,
      rodeada de uma série de restrições heterofóbicas.
      Pois bem: mesmo nessa sociedade radicalmente homossexualista, estudos
      revelam que a taxa anual de fecundidade da população se reduz em apenas
      15%, se comparada com os demais povos heteros-sexistas, não chegando
      portanto essa prática privilegiada do homoerotismo a ameaçar a
      perpetuidade desses exóticos exemplares da espécie humana (49).

      Um outro exemplo histórico que contradiz a fobia irracional de que a
      liberação homossexual possa provocar o fim de nossos semelhantes
      remete-nos ao Japão antes da restauração da dinastia Meiji (1865), quando
      a prática homossexual era socialmente aceita como comportamento normal e
      moralmente correcto. Hoje sabe-se que grande parte dos valorosos samurais e
      a maior parte dos delicados actores transformistas do teatro nô e kabuki
      eram praticantes do homoerotismo, gozando de enorme admiração e aplauso
      geral (50). Pois bem: comprova a demografia histórica que, apesar da
      grande tolerância e prática generalizada da homossexualidade, a população
      nipónica cresceu naquele período até os limites extremos da subsistência
      física, derrubando-se assim as ilações alarmistas de que a liberação do
      amor entre parcei-ros(as) do mesmo sexo levaria necessariamente à
      depopulação e extermínio do Homo sapiens (51).

      Apesar de há décadas ser este o ensinamento de diferentes ramos do saber,
      persiste no imaginário colectivo esta conclusão simplista: já que os
      homossexuais não reproduzem - "bicha com bicha dá lagartixa", "mulher com
      mulher dá jacaré", como se diz no Brasil, ou ainda, "homem com
      homem dá lobisomem" -, gays e lésbicas representam séria ameaça
      à sobrevivência humana.

      Esta é uma das explicações da recrudescência da homofobia logo após a
      enorme mortandade registrada na Europa em consequência da peste negra: "os
      homossexuais tornaram-se bodes expiatórios para a peste e para o declínio
      populacional, e eram claramente vistos como um ultraje para o código de
      respeitabilidade burguesa, recém-estabelecido e influenciado pelas Ordens
      Mendicantes". Como se sabe, aproximadamente 40% da população europeia
      pereceu em consequência da peste negra (1348), provocando enorme
      desequilíbrio sociodemográfico, inclusive em Portugal, daí a necessidade
      premente de povoar  vastos territórios desertificados de gente após
      tamanha mortandade. Além de "os pregadores invariavelmente atribuírem o
      início da Peste Negra à sodomia" (52), o desperdício do sémen por parte
      dos sodomitas passou a ser ainda mais atentatório dada a calamidade
      populacional vivida numa quadra tão dramática (53).

      Se de um lado a imoralidade do clero e o espectro da peste desencadearam
      reacções de intolerância localizadas ou regionais contra os sodomitas, uma
      terceira hipótese explica a generalizada onda de desconfiança e repressão
      aos amores unissexuais - onde novamente se revela o temor de seu carácter
      intrinsecamente revolucionário e demolidor: a preservação do padrão
      tradicional do casamento heterossexual e da constituição da família
      burguesa. Os gays foram vistos, e de fato assim agiram, em variados
      contextos históricos, como perigosos "filhos da dissidência".

      Segundo relatam os etnógrafos, a quase totalidade das sociedades humanas
      teve como critério definidor dos enlaces matrimoniais, não o amor
      romântico ou paixão sexual, mas os interesses patrimoniais de aliança das
      famílias dos nubentes. Matrimonio = Património. Ainda no tempo de nossos
      avós ou bisavós, sobretudo nas classes mais abastadas e controladas pela
      moral cristã, predominavam os casamentos arranjados, onde o que menos
      importava era a vontade dos noivos. Na esteira da tradição judaica, ao
      longo de toda a Idade Média, os cristãos continuam a visualizar a mesma
      finalidade no casamento: antídoto contra a tentação sexual e a geração de
      numerosa prole. Casa-se para procriar, de preferência filhos homens.

      Filhos numerosos são interpretados como inefável bênção divina e
      felicidade suprema. A esterilidade da mulher representa desgraça máxima,
      castigo de Deus. O apóstolo Paulo e Jesus reinterpretam neste particular a
      Lei de Moisés, passando o cristianismo a condenar o divórcio (54), embora
      somente a partir do século XIII a Igreja confira ao casamento o status de
      sacramento, ao lado do baptismo e da ordem (55).

      Teólogos, como o bispo Huguccio e Jean Gerson, defendiam, ainda no século
      XV, que mesmo dentro do matrimonio o sexo, até na posição "pai-mãe",
      também conhecida como "posição do missionário", constituía pecado venial
      (56). Predominava, em amplos círculos da cristandade, o vetusto
      ensinamento de São Jerônimo: "Um homem sábio deve amar a sua mulher com
      discernimento e não com paixão e, consequentemente, controlar os seus desejos
      e não se deixar levar à copulação. Nada é mais imundo do que amar a sua
      mulher como uma amante" (57).

      Dentro desse estóico código moral, o amor deve suceder ao casamento e não
      necessariamente precedê-lo, obrigando a Santa Igreja a dar publicidade
      da cerimonia nupcial como forma de controlar os desejos, interferir nas
      alianças familiares, exigindo para tanto que os proclamas fossem
      realizados com bastante antecedência, evitando-se assim os riscos da
      fraude e sobretudo o pecado e crime da bigamia. A burocratização cartorial
      do matrimonio, formalizada a partir de então, além de garantir muitas
      benesses e polpudas espórtulas ao clero, visava o controle integral,
      através dos sacramentos, de todo o ciclo vital do rebanho dos fiéis:
      baptismo no nascimento, matrimonio na maturidade sexual, extrema-unção na
      hora da morte (58).

      Uma perigosa brecha persistia, porém, embutida na tradição cristã: segundo
      o direito canónico medieval, os próprios nubentes eram reconhecidos como
      os legítimos ministros do matrimonio, bastando para sua validação legal
      que o casal declarasse perante uma testemunha, podendo ser inclusive um
      leigo, que a partir daquele instante passavam ambos a reconhecer-se e  a
      coabitar como marido e mulher. Tal possibilidade canonicamente válida
      colocava em grave risco o controle da família cristã, desde quando
      sobretudo os jovens, "tentados pelo demónio", realizavam clandestinamente
      o chamado "casamento de palavras", arruinando os projectos de aliança
      familiar zelosamente construídos pelos progenitores.

      Foi somente o Concílio de Trento (1545-1563) que proibiu rigorosamente tal
      prática, obrigando a divulgação dos banhos corridos e a presença de um
      sacerdote oficiante como condição sine qua non da validade desse
      sacramento, ratificando-se nesse mesmo sínodo tridentino outro dogma
      relativo à união conjugal católica: a stabilitas - a estabilidade
      indissolúvel dos casados.

      "Equilíbrios tão cuidadosamente preparados e tão frágeis, onde se
      patenteia o carácter coercitivo da aliança entre famílias e dos
      intercâmbios de rapazes e raparigas, teriam sido comprometidos se os
      casamentos pudessem ser rompidos com demasiada facilidade, e as esposas
      repudiadas; Tem-se a impressão de que a stabilitas do casamento precoce
      era a condição da stabilitas da comunidade inteira. Cabia à própria
      comunidade fazer com que ela fosse respeitada" (59).

      Nesse contexto de crescente domesticação das moralidade, como agiam e
      eram vistos os praticantes do amor unissexual, ou melhor, do abominável e
      nefando pecado de sodomia? Com a palavra nosso já conhecido São Bernardino
      de Sena:
      "Pode existir um jovem rapaz de raros talentos, alguém de grande
      inteligência, feito para realizar maravilhas, mas uma vez corrompido pela
      sodomia, ele se transforma numa criatura do Diabo. Ele rejeita todas as
      coisas naturalmente boas, todos os pensamentos de Deus, do Estado, da sua
      família, rejeita os seus negócios, a sua honra, a sua própria alma. Ele só pensa
      em assuntos malignos" (60).

      Quem melhor sintetizou na nossa língua a suposta malignidade
      revolucionária representada pelos sodomitas foi o cardeal D. Henrique
      (1512-80), segundo inquisidor geral da Inquisição Portuguesa, que, em
      1574, obteve um Breve de Gregório XIII ratificando a pena de morte aos
      sodomitas, referidos na documentação inquisitorial como "filhos da
      dissidência" (61). Dissidência, cisma, cisão equivale a se separar de uma
      corporação por divergência de opiniões, atentar contra a tão desejada
      unidade do orbe católico, "um só rebanho e um só pastor!". Os sodomitas
      atentavam contra esse desiderato ideológico, assustando todas as camadas
      sociais, dos donos do poder ao populacho. Tanto quanto ou até mais que os
      hereges, os filhos da dissidência, devido ao seu inconformismo numa
      questão reputada como indiscutível - a moral sexual natural -, ultrajavam
      com a sua dissidência erótica o ensinamento oficial da ortodoxia, ostentando
      o carácter revolucionário de sua insubordinação às leis divinas e
      insistência na prática do peccatum contra naturam.

      Eis o pensamento oficial da Inquisição Portuguesa sobre este particular:
      "O crime de sodomia é gravíssimo e de tal qualidade que houve quem
      afirmasse com grande fundamento que quem o cometia era suspeito na fé, e
      tão contagioso, que mostra a experiência pois em breve tempo infecciona
      não só as casas, lugares, vilas e cidades, mas ainda Reinos inteiros, e é
      obrigação precisa atalhar males grandes e de que Deus tanto se ofende, com
      meios eficacíssimos e, para os descobrir, não há outro meio mais adequado
      que a denúncia forçada" (62).

      Num sermão num auto-de-fé, realizado em Lisboa em 1645, onde foram
      queimados diversos sodomitas, esse mesmo pensar é assim ratificado:
      "Sodoma quer dizer traição. Gomorra, rebelião. É tão contagiosa e perigosa
      a peste da sodomia, que haver nela compaixão, é delito. Fogo e todo rigor,
      sem compaixão nem misericórdia! Tanta força tem o lugar apestado deste
      vício que para livrar dele até a um inocente, é necessário a violência de
      muitos anjos" (63).

      Pode considerar-se um precioso achado sócio linguístico a caracterização dos
      amantes do mesmo sexo como "filhos da dissidência", pois, por mais
      alienado, reprimido e pré-político que seja um homossexual, a sua
      insubordinação aos cânones da moral oficial representa uma violenta
      revolução que ameaça arruinar os alicerces constitutivos da hegemonia do
      macho e da sociedade heterossexista. Ao tomar como móvel da aproximação
      dos corpos tão-somente a paixão erótica e eventualmente o amor romântico,
      os gays, desde priscas eras, privilegiaram a emoção e o prazer em
      detrimento da reprodução biológica ou das alianças patrimoniais.
      Anteciparam em milénios o que Freud antevia como elemento
      desestabilizador da hierarquia dos sexos na nossa civilização: a
      possibilidade de libertar os amantes de uma gravidez indesejável numa
      sociedade que desconhecia métodos eficazes de anticoncepção. Foram os
      homossexuais os apóstolos do sexo livre, descomprometidos do espectro da
      gravidez indesejada, dissidentes da dominante endogamia de classe e raça
      (64).

      Uma segunda e não menos assustadora ameaça dos filhos da dissidência
      nestes quatro mil anos de história pós-abraâmica tem sido o questionamento
      da cruel hegemonia falocrática do macho todo-poderoso, da perpetuação da
      hierarquia patriarcal através de contratos nupciais, onde a cobiça do
      património prevalece no matrimonio, onde o prazer sexual e emocional é
      relegado à periferia da instituição conjugal. Os homossexuais,
      inversamente, ao privilegiarem desde sempre a atracão física, a emoção, o
      amor e paixão, como ingredientes indispensáveis dos arranjos íntimos
      interpessoais, tornaram-se, historicamente, se não os inventores, quando
      menos os precursores e principais praticantes do amor romântico, isto,
      muitíssimos séculos antes da paixão impossível de Romeu e Julieta e dos
      trovadores medievais.
      Tal dissidência inovadora ao modelo erótico-sentimental dominante foi
      altamente reprimida por ser causadora de incontrolável desestabilização
      da autoridade do pater-familias e da família patriarcal, tanto que o
      casamento de palavras passou a ser perseguido como grave delito do
      conhecimento da justiça eclesiástica, posto representar uma forma também
      revolucionária e insurgente de os jovens contestarem o autoritarismo
      familiar.
      A repressão anti-homossexual tem a ver directamente com o medo representado
      pelo cisma, quase heresia, representada pelo estilo de vida dos sodomitas,
      onde estão reunidos ingredientes explosivos, tais como a democracia
      sexual, o questionamento da hierarquia dos gêneros, a alternativa da
      unissexualidade, a inversão dos papéis sexuais, o travestismo, a
      transexualidade, todos comportamentos e condutas altamente
      desestabilizadores da sociedade heteros-sexista e falocrática, onde as
      regras de comportamento de gênero e o erotismo são definidos
      hierarquicamente garantindo a supremacia do macho. As uniões nómades ou
      passageiras, a "promiscuidade", a rotatividade de parceiros e inversão
      de performances, a androginia são mais alguns elementos revolucionários da
      subcultura gay, já devidamente documentada desde o século
      XVI, constantes ainda hoje em dia (65), que questionam e assustam a
      sacralidade e indissolubilidade dos vínculos matrimonias dos casais
      heterossexuais. Daí a repulsa neurótica de alguns homófobos mais
      autoritários que se opõem tenazmente à legalização da parceria civil e
      mais ainda, ao casamento gay, alegando que a família e o matrimonio
      heterossexual estariam gravemente ameaçados. Novamente aqui, a mesma fobia
      mitológica, de que a liberação homossexual redundaria na bancarrota da
      heteros-sexualidade. 


       Na Idade Média, o amor homossexual foi duramente reprimido por constituir
       deletéria ameaça à estabilidade da
      família tradicional, na medida em que minava perigosamente a autoridade
      patriarcal no tocante ao controle das estratégias de aproximação dos sexos
      e a constituição de novas unidades familiares. Na América Portuguesa,
      assim como na Espanhola, a endogamia das famílias de origem europeia foi a
      estratégia oficial, abençoada pela Igreja, instaurada a fim de evitar que
      "cristãos-novos" e "gente de sangue impuro" se unissem e infectassem as
      "famílias limpas". A endogamia da oligarquia colonial, evitando a mistura
      de seus descendentes com a raia miúda e sobretudo com a gentalha
      não-branca, tornou-se uma obsessão das elites fundiárias, optando muitas
      famílias, às vezes, pelo enclausuramento forçado das suas filhas donzelas,
      evitando assim uniões com indivíduos considerados de condição social ou
      racial inferior. Os famigerados processos de "qualificação de pureza de
      sangue", indispensáveis para admissão na clericatura e nas altas funções
      governamentais, visavam exactamente manter na elite tão-somente os
      cristãos-velhos.

      A união livre dos homossexuais, desrespeitando as barreiras de raça,
      estamento e idade, parceria baseada tão-somente na paixão e mútua empatia,
      detonava a ordem familista patriarcal tradicional, daí o afinco com que os
      donos do poder colonial reprimiram os "filhos da dissidência".
      Hoje em dia, nos inícios do terceiro milénio,  quando na prática,
     os homossexuais continuam  sendo, dentre todas as minorias sociais,
      as principais vítimas  do preconceito e discriminação, estamos
     presenciando a persistência de um  mito, velho de quatro mil anos,
      imposto aos nossos antepassados à custa de
      pedradas e da fogueira da Inquisição - mito cruel e pernicioso que hoje,
      na era dos computadores, urge que ceda lugar ao respeito dos direitos
      humanos e à diversidade cultural. Sobretudo, porque há muito que tornou
      ridiculamente caduca aquela fobia irracional ao potencial revolucionário
      representado pelo amantes do mesmo sexo. O problema actual da humanidade é
      a explosão demográfica, sendo portanto absurdo e antiecológico pretender
      aumentar a população "como as estrelas do céu e as areias do mar".

      Hoje gays e lésbicas deveriam ser premiados por colaborarem efectivamente com o
      controle da natalidade (73).

      Uma segunda invenção dos homossexuais, antigamente revolucionária e
      temida, tornou-se tb hoje inofensiva: o sexo prazer dissociado da
      reprodução e o primado do amor romântico como critério das uniões
      conjugais. Hoje, graças à pílula, ao preservativo e aos novos métodos
      anticoncepcionais ou abortivos, os heterossexuais também podem manter
      relações sexuais sem o risco da gravidez indesejada, apanágio dos
      sodomitas em épocas coevas (74). Da mesma forma, o amor romântico e a
      atracção física, antigamente privilégio dos filhos da dissidência,
      tornaram-se hoje, graças aos efeitos da globalização da cultura ocidental,
      a regra áurea da aproximação dos sexos em grande parte do universo.

      E o que falar da moda unissex, dos homens com brinco na orelha, das mulheres
      usando jeans, da cultura "GLS", das drag-queens, das operações de sexo;
      Parece que uma parcela dos próprios homossexuais, depois que saíram do
      armário, nos anos pioneiros da Revolução de Stonewall (1969), o festejado
      coming out (75), tende hoje mais à integração do que à dissidência: "Os
      gays organizados representam hoje uma forma nova de encarar a vida. Casam,
      adoptam crianças. Os gays não querem mais revolucionar o mundo. A revolução
      sexual ocorreu na década de 70 e já é fato consumado. Agora é a hora da
      estabilidade, é a hora de se impor, de conquistar lugares. E é isso
     que estamos a fazer".   Estas são as palavras do primeiro gay assumido,
      do partido republicano, a fazer parte oficial do actual governo norte-americano.
      Homossexuais que  conquistam lugares e se impõem não deixam
      de representar uma força  revolucionária no mundo heterossexista.

      Enquanto isto, na Terra dos velhos do Restelo, políticos e detentores do poder,
      insistem que "existem coisas bem mais importantes para se discutir
     na Assembleia da República", do que leis que conferem direitos a homossexuais...

Autor: Dr. Luiz Mott
Professor Titular do Departamento de Antropologia da UFBa,
Fundador do Grupo Gay da Bahia.
Caixa Postal 2552 - 40022-260, Salvador, Bahia, Brasil
Fone/fax: (71) 328.3782 - 328.2262
Http://www.luizmott.cjb.net
Mail: luizmott@ufba.br





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